No mundo dos investimentos, não estude apenas os peixes. Analise também o aquário.

É fato que adquirir educação financeira, por qualquer de suas formas – livros, cursos online, apostilas, blogs, vídeos, palestras etc. – lhe fornece as habilidades necessárias para ter sucesso não só no gerenciamento de suas finanças pessoais (organização do passivo e controle de gastos), mas também nos investimentos, ou seja, nas técnicas indispensáveis para bem gerenciar seu plano de investimentos com vistas a conquistar objetivos de curto, médio e longo prazos.

Porém, é preciso ir além do be-a-bá normalmente ensinado para essas finalidades, e procurar ver o quadro de uma perspectiva mais ampla, ainda que você, inicialmente, seja resistente a esse tipo de aprendizagem mais global.

Em face da imediatidade inerente ao ser humano, de querer respostas prontas e soluções imediatas para seus problemas e suas dúvidas, é muito comum que determinadas perguntas apareçam com mais frequência entre os novatos do que entre aqueles que detém conhecimentos mais avançados de investimentos.

Por exemplo, se você já tem um grau avançado de educação financeira, provavelmente é consultado por seus colegas, parentes e amigos mais próximos, sobre dúvidas relacionadas a investimentos e finanças pessoais.

E uma das perguntas mais comuns que você deve ouvir – se é que não é A pergunta mais comum – é essa:

Qual é o melhor investimento?

Isso é normal. Como eu disse acima, é inerente ao ser humano, de querer respostas rápidas e soluções prontas, de não querer se aprofundar nas questões que demandam, sim, muito tempo e muita energia mental para se conseguir obter respostas precisas.

Porém, se você tem uma mentalidade autodidata e está disposto a se aprofundar na temática dos investimentos, até para melhor conduzir suas escolhas de ativos e, consequentemente, ter um melhor controle de seu planejamento financeiro, aqui vai um convite à reflexão, que está, aliás, estampado no título desse tópico: não estude apenas os peixes. Analise também o aquário.

O que eu quero dizer com isso?

Simples.

No caso das ações, que vêm nos últimos anos despontando como uma alternativa à renda fixa para a constituição de patrimônio a longo prazo, praticamente 100% dos investidores iniciantes – e até dos intermediários e eu diria que também de uma significativa porção dos avançados – estuda e foca somente no estudo das chamadas análises dos denominados “peixes”, ou seja, das empresas em si, seja por meio da análise fundamentalista, seja por meio da análise gráfica.

Esse pessoal lê livros sobre value investing, lê livros sobre Warren Buffett, lê relatórios e mais relatórios produzidos por casas de análise, assina canais no YouTube e podcasts que tratam do tema, assinam e leem publicações especializadas a respeito etc.

Nada disso está errado ou ancorado em premissas equivocadas. Boa parte desse material produzido aos montes tem sua valia e tem sua utilidade para conseguir sucesso nos investimentos nas ações.

Mas não é suficiente.

É preciso ir além do estudo dos “peixes”, pois eles podem estar em ótimas condições, como, por exemplo, sem grandes endividamentos, gerando lucros consistentes e valor para os acionistas, mas… podem estar inseridos num ambiente de bolha. Ou seja, de nada adianta comprar um peixe de qualidade, se o aquário onde ele está inserido, ou seja, se o ambiente em que ele estiver envolto, estiver em deterioradas condições, indicativos de uma possível crise, recessão, depressão ou bolha prestes a estourar.

Trocando em miúdos: estude também o cenário macroeconômico. Uma empresa boa situada num país ruim pode ser impactada por externalidades ou por eventos alheios a essa empresa.

É preciso estar vigilante e ver aquilo que os olhos não veem, ou seja, ir além da superfície dos acontecimentos, pois a absoluta maioria das pessoas é pega de surpresa pelo estouro de bolhas, por não terem se precavido o suficiente quando uma crise econômica estoura.

E as crises chegam sem aviso claro algum – e o exemplo do estouro da crise do coronavírus em março e abril é mais um exemplo típico disso.

O que ocorre, também, é que os investidores investem pesado no contrapé do mercado, ou seja, investem mais quando os ativos estão mais caros, e investem menos, ou até vendem, quando os ativos começam a rumar ladeira abaixo, amargando prejuízos e realizando perdas que demoram a serem recuperadas.

O problema das bolhas é justamente esse: elas pegam a maioria dos pequenos investidores de surpresa. Elas chegam sem muito aviso prévio… mas chegam.

Daí a importância não apenas de estudar o aquário como um todo, mas sobretudo de firmar uma posição crítica e independente de tudo o que está acontecendo, pois isso normalmente implica em remar contra a maré, ou seja, de não fazer o que a maioria absoluta das pessoas está fazendo.

Estudar o aquário e ganhar as habilidades de ter uma postura crítica e autônoma em relação aos investimentos lhe dará também as habilidades necessárias para evitar ser pego de surpresa quando a euforia colapsa e os mercados desabam, bem como a de evitar ser um investidor do tipo torcedor, que aporta dinheiro na esperança e na torcida de seus ativos financeiros subirem mais do que a média.

São nesses momentos de virada do mercado é que se percebe se você efetivamente realizou um controle de risco em sua carteira, ou se simplesmente seguiu a manada.

Onde estudar o “aquário”?

Diante do excesso de informação gerado pela ampla disponibilização de material gratuito na Internet, fica até difícil para o investidor iniciante proceder ao estudo do “aquário” onde estão seus “peixes”.

Por conta disso, resolvi enumerar abaixo 3 fontes para estudo de economia de um modo geral, o que evidentemente não exclui outras sugestões que os leitores queiram dar na caixa de comentários.

As cartas mensais de gestores de fundos de investimentos, disponíveis a um simples clique no Google, são uma excelente maneira de aprender mais sobre o mundo macroeconômico, principalmente devido ao fato de eles estarem com o tal “skin the game”, ou seja, eles precisam estudar o aquário para terem sucesso em seus investimentos, e as cartas fornecem valiosos subsídios para o estudo.

Verde Asset, Adam Capital, Dynamo, AZ Quest etc., são algumas das gestoras que produzem cartas periódicas onde é possível ter uma pluralidade de opiniões sobre os cenários macroeconômicos, fornecendo, assim, subsídios em múltiplas perspectivas sobre o andamento da economia de um modo geral.

Outra excelente fonte de conhecimento para o estudo da economia, principalmente sob uma perspectiva histórica e, portanto, mais ampla, é o site do Instituto Mises Brasil, que contempla uma ampla variedade de artigos, livros e podcasts para entender melhor os rumos da economia no Brasil e no mundo, tendo como um de seus principais pilares a defesa da liberdade de ação humana.

Por falar em conhecer a história da economia, também vale muito a pena estudar o pensamento de Ray Dalio, famoso gestor de fundos nos EUA, que tem um site Principles, que congrega muito conteúdo sobre o pensamento dele sobre os rumos da economia em âmbito global.

Conclusão

Por todos esses motivos, amplie seus estudos para um horizonte maior.

Não se prenda a estudar somente os peixes, os ativos isolados e desconectados de um cenário maior. Estude também e com cuidado o aquário onde esses mesmos peixes estão nadando, e tome as medidas de prudência e de cautela a fim de que você tenha “bala na agulha” quando uma crise estourar.

Procure fazer correlações entre os eventos econômicos e, a partir dessas inferências e aprendizados acumulados, estabelecer linhas de comportamento que te orientem a agir de forma prudente e calculada nos seus investimentos.

Muitas vezes, entender cenários mais amplos e compreendê-los de uma forma mais profunda pode produzir resultados mais valiosos para a sua carteira de investimentos do que o estudo dos ativos financeiros isoladamente.

Muito melhor do que ganhar R$ 10, R$ 100 ou R$ 1.000 num day trade, swing trade ou venda de um ativo financeiro no curto prazo é evitar a perda (ou realizar o ganho) de dezenas ou centenas de milhares de reais a partir de uma tomada de decisão consistente, prudente e racional, e que vise o longo prazo.

Quanto mais amplo for seu entendimento sobre a economia e sobre os rumos e funcionamento das engrenagens do sistema capitalista, mais poderes terá seu cérebro para tomada de decisões certeiras e eficazes.

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