Taxa de juros muito baixa é o final de uma solução ou o começo de um problema?

Não obstante a euforia que tomou conta dos mercados financeiros nos últimos dias, por conta dos resultados das eleições presidenciais nos EUA e do anúncio, por alguns laboratórios, de uma vacina potencialmente eficaz contra o coronavírus, a economia ainda continua em frangalhos no mundo inteiro.

Os problemas sociais, políticos e econômicos persistem, e não surgiram da noite para o dia: são o resultado de uma complexa rede de atos, fatos e eventos contínuos, que foram se desenrolando ao longo dos últimos anos, e cuja eclosão da pandemia do coronavírus serviu apenas para intensificar, acelerar – ou mesmo revelar (ainda que parcialmente) – todos os problemas (que não são poucos) que o mundo terá que enfrentar na era pós-pandemia.

Esse é um post que traz reflexões sobre o ambiente macroeconômico em que atualmente estamos vivenciando, que pode, é claro, refletir no campo não só dos seus investimentos, mas também das suas finanças pessoais, em coisas relacionadas a gastos e planejamento de médio e longo prazos.

A era dos juros negativos – e a intrincada rede de problemas que está por trás disso

Estamos, indubitavelmente, vivendo a era dos juros reais negativos, e não só no Brasil, mas também no resto do mundo. A taxa SELIC a 2% ao ano, mantida artificialmente baixa pelo Banco Central, está ocasionando problemas de diversas ordens.

Em primeiro lugar, há o problema de não conseguir ganhar da inflação com investimentos atrelados à SELIC.

Isso porque com uma inflação, medida pelo IPCA, em 2,22% no acumulado de 2020, e em 3,92% no acumulado dos últimos 12 meses, é evidente que os investidores em renda fixa pós-fixada estão encontrando muitas dificuldades em ganhar da inflação.

Mas o pior nem é isso (ou é tão grave quanto): é constatar que quem tinha dinheiro da reserva de segurança num fundo referenciado DI composto, basicamente, por títulos do Tesouro SELIC, viu a sua rentabilidade negativa há alguns meses, no desempenho mensal.

Houve uma situação de estresse do mercado, pois os agentes financeiros exigiram um ágio ao comprar títulos do governo, desconfiando dos excessivos gastos que o Governo Federal tem realizado, o que está provocando uma crise fiscal sem precedentes nos últimos anos, com um escalonamento cada vez maior da dívida pública do Governo, que já está perto de alcançar 90% do PIB (há 7 anos, o percentual era pouco superior a 50%).

O problema dos gastos fiscais excessivos, que já era crônico antes da pandemia, piorou com o advento dela. A gestora de fundos de investimentos Verde Asset publicou um estudo muito interessante a respeito, há pouco tempo, e no gráfico abaixo vemos quão mal posicionado está o Brasil em relação ao resto do mundo nessa questão:

O estudo da Verde Asset apontou que um dos fatores que contribuíram para o desequilíbrio da economia e do déficit fiscal durante a pandemia foi o modo como foi desenhado o auxílio emergencial, ou melhor, os gastos excessivos com esse programa:

“Por mais meritório que seja, o propósito do auxílio-emergencial não é o de reduzir a pobreza pré-existente no Brasil (não é função de um programa emergencial e temporário resolver um problema estrutural). A fim de resolver este problema estrutural, entendemos que o caminho correto a seguir é o da focalização das políticas de transferência, conforme proposto pelo Programa de Responsabilidade Social, elaborado com o patrocínio do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP).

Urge criar espaço, sem malabarismos ou pedaladas, dentro do Teto, efetivamente cortando gastos ineficientes e usando melhor os recursos da já elevada carga tributária brasileira. Quanto mais conseguirmos racionalizar o uso de recursos no setor público, mais poderemos fazer do ponto de vista da diminuição da pobreza que assola o país.”

É claro que, no Brasil, a taxa de juros muito baixa causa uma série de outros problemas – e fica o convite aos leitores para adicionarem suas reflexões na caixa de comentários – mas é visível que o patamar atual da taxa de juros não é sustentável a médio e longo prazos, a menos que as autoridades monetárias queiram continuar empurrando o problema “com a barriga”.

A inflação dos insumos, a inflação do IGP-M, a inflação do IPCA…

Um dos piores cenários que pode ocorrer, nesse contexto de crise econômica, recessão, dólar alto e problemas fiscais cada vez mais agudos, é a inflação voltar com força – fato que, infelizmente, parece já estar na linha do horizonte.

O que temos visto nas notícias é algo mais ou menos assim: “a inflação foi de tantos por cento, a maior alta desde ….”

O IPCA fechou outubro em 0,86%, a maior alta para o mês desde 2002. Nem nos anos de recessão de 2014 a 2016 ela esteve tão alta para esse mês.

O IGP-M, usado nos reajustes dos contratos de aluguel, fechou os últimos 12 meses com alta de mais de 23%.

Como se não bastasse tudo isso, ainda temos a “novidade” representada pela inflação nos insumos, em diversos setores: construção civil, atacado, alimentos e até flores….

Uma combinação explosiva de fatores tem contribuído para isso: a impressão acelerada de dinheiro pelo Banco Central (com medidas como a impressão de dinheiro advindo do auxílio emergencial), o aumento excessivo e repentino da demanda, em descompasso com a incapacidade da indústria de dar conta da demanda na mesma velocidade (nenhuma empresa que foi obrigada da noite para o dia a desligar as máquinas conseguiria retomar a produção a 100% na mesma velocidade com que foi fechada), o dólar caro (que favorece as exportações e, portanto, cria condições desfavoráveis para o abastecimento no mercado interno) etc.

O problema não é nem os índices de inflação oficial, mas sim a inflação sentida na pele pelas pessoas, no dia a dia. É incrível como os preços têm aumentado em praticamente todos os lugares por onde você anda, e, com isso, a moeda brasileira vai ficando cada vez mais desvalorizada.

Por outro lado, é de se pensar se essa alta repentina nos preços, ou o denominado choque de demanda, irá se sustentar a médio e longo prazos, ou se não seria mais um fenômenos passageiro. Como bem afirma o economista Paulo Gala:

“No momento, a economia brasileira está ancorada e não irá a lugar algum. Os juros extremamente baixos deram algum fôlego de retomada ao setor de construção civil via crédito, mas sem emprego e renda, o movimento não será sustentado. O câmbio mais desvalorizado está ajudando a indústria, mas, sem um vigoroso impulso de demanda, esta também não irá longe. O investimento privado segue deprimido, em mínimas de quase uma década. em um cenário como este, somente uma política fiscal estimulante poderá nos ajudar. E ,sem uma regra fiscal mais racional e pragmática, isso não será possível. O teto fiscal nos ancorou em termos de expectativas de inflação e estagnação econômica.”

Como se proteger em cenários adversos

Em situações de dívida pública explodindo, pandemia, crise econômica e inflação crescente, ou seja, num cenário ruim, é prudente agir com mais cautela e prudência.

Alguém poderia dizer: mas a Bolsa de Valores está subindo, tendo inclusive fechado a última semana na faixa dos 106 mil pontos. Isso não seria um sinal de que ela estaria antecipando movimentos futuros de recuperação econômica?

Sim e não. Sim, porque a Bolsa realmente procura antecipar as tendências da economia, mas você não deve basear suas decisões de investimentos em ditados populares, mas sim alicerçado num prudente mecanismo de controle de risco.

E não porque a recuperação econômica, particularmente no Brasil (e é muito bom prestar atenção nisso), não depende somente de uma vacina eficaz contra o coronavírus, mas sobretudo da correção do enorme problema nas contas fiscais do Estado brasileiro, que, assim como milhões de famílias brasileiras, está endividado (e eu diria super endividado), gastando (bem) mais do que ganha (vide a arrecadação tributária que sofreu com a atividade econômica paralisada durante meses), e não alocando os recursos financeiros de maneira eficiente, com o risco real de extrapolar o teto de gastos (novamente).

Há ainda o problema da expansão da base monetária na economia brasileira, ou seja, no ingresso de dinheiro novo (impressão de dinheiro: por conta dos auxílios, linhas de crédito com juros mais baixos etc.). Mais dinheiro circulando no mercado significa potencial aumento de demanda (mais pessoas com dinheiro na mão), e, como a oferta de produtos e serviços não está aumentando na mesma proporção (a disponibilidade de bens é a mesma, ou até diminuiu), o resultado é os preços subirem – lei da oferta e da demanda – ocasionando inflação.

Como a moeda brasileira está cada vez mais depreciada – e não há sinais no horizonte de que essa tendência seja revertida – investir em ativos estrangeiros, como ações internacionais e títulos de renda fixa emitidos no exterior é uma opção para se proteger, caso o real continue na sua “pegada” de desvalorização.

Porém, mesmo o mundo não está imune a uma crise global, com a atuação cada vez mais suspeita dos Bancos Centrais do mundo inteiro de injetarem quantidades maciças de dinheiro na economia, manterem taxas de juros negativas por longos períodos de tempo, e comprarem (eles também!) ativos privados (como títulos de renda fixa, hipotecas, ETFs e ações de empresas privadas), introduzindo um componente no mínimo estranho na teoria clássica dos investimentos – o Estado como agente investidor direto de ativos no mercado financeiro.

Dessa maneira, ativos com lastro real, em bens que não sejam papel moeda, como ações de empresas de qualidade (ao comprar uma ação você compra um pedaço de propriedade de uma empresa) – desde que seja apenas com parcela de seu capital, metais preciosos (ouro e prata, por exemplo), terras (terrenos, imóveis e fundos imobiliários) constituem também uma espécie de proteção contra a própria desvalorização do papel moeda.

Há aqueles que também investem em Bitcoin ou outras moedas digitais, em funções de suas propriedades: ingerência zero dos Bancos Centrais, escassez, e impossibilidade de confisco governamental.

Conclusão

Ray Dalio, um dos maiores investidores do mundo, costuma dizer que um dos princípios que regem sua filosofia de vida e de trabalho é focar no desconhecido, ou seja, procurar saber aquilo que você não sabe muito, pois uma das chaves para evoluir e construir conhecimento é lidar com essas incertezas.

Normalmente, no mundo dos investimentos, principalmente as pessoas físicas que não são profissionais da área (e na verdade, muitos profissionais também), só focam em questões atinentes aos investimentos em si: análise fundamentalista de ações, alocação de ativos, renda fixa etc.

Tudo isso é importante e necessário, claro, mas é preciso construir um conhecimento mais abrangente, tentando entender o funcionamento da economia como um todo.

Isso dará vantagens inegáveis no sentido de desenvolver um pensamento crítico e independente, pois você raciocina em bases mais amplas, podendo até enxergar aquilo que ninguém (ou poucos) enxergam, e, ao fazer isso, provavelmente você terá condições também de se antecipar ao que restante das pessoas irão fazer, sem ficar dependendo da opinião de terceiros para agir e investir.

Infelizmente, nem tudo o que está visível sob a superfície da economia é tudo o que há. Muitas coisas ocorrem debaixo da superfície, e é necessário investigar esse conhecimento.

Por todos esses motivos, é preciso encarar com uma certa desconfiança o movimento repentino de altas nos mercados, pois elas podem estar refletindo mais uma euforia dos investimentos do que uma verdadeira ancoragem em bases econômicas sólidas e sustentáveis prospectivamente.

 

 

 

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