2021: Pés no chão

A chegada de um novo ano costuma ser um marco simbólico para as pessoas projetarem mudanças, fazerem planos ou tentarem dar um novo rumo em suas vidas.

Em virtude dos acontecimentos decorrentes da eclosão da pandemia do coronavírus, que deixou marcas negativas em muitas pessoas e famílias ao longo do ano de 2020, a tônica para 2021 está sendo a tônica da esperança, ainda mais com as vacinas sendo entregues e já sendo aplicadas em prazo recorde.

No âmbito da economia e investimentos, apesar de toda crise deflagrada pela pandemia, o IBovespa parece que irá terminar o ano de 2020, por incrível que pareça, com rentabilidade positiva, apesar do caos que tomou conta da Bolsa entre março e abril, com um sem número de circuit breakers e o rápido afundamento até a faixa dos 63 mil pontos em março.

Os mercados financeiros, animados e reforçados com uma injeção de liquidez jamais vista na História, promovida pelos Bancos Centrais do mundo inteiro, não só “compraram” a esperança, mas também “compraram” o novo normal, com recordes impressionantes de valorização das ações, especialmente nos Estados Unidos (índices Dow Jones, S&P 500, Nasdaq), que, na verdade, devem ser vistos com muita cautela, ou seja, eles podem ser mais indicativos de uma bolha financeira prestes a estourar do que propriamente um reflexo da melhora dos fundamentos da economia.

O bitcoin também está nas alturas, com cotações recordes acima dos USD 25 mil.

A importância de manter os pés no chão

A minha proposta de reflexão, numa época de euforia como a que estamos passando, e que é dirigida principalmente para quem tem investimentos de risco, é justamente a que está contida no título desse tópico: mantenha os pés no chão.

Em outras palavras: não se deixe contaminar pela euforia dos mercados, pois a diminuição subjetiva da percepção de risco pode trazer danos ao seu patrimônio financeiro.

Devemos celebrar a chegada das vacinas e o (quase) restabelecimento de uma nova normalidade?

Sim, mas isso não descarta a necessidade de nos mantermos precavidos e seguindo as orientações necessárias para nos cuidarmos.

Na verdade, a exposição a risco é um fato inerente à vida em sociedade, cada vez mais complexa e cada vez mais dirigida a causar nossa desatenção em coisas que deveríamos ficar mais atentos.

Mesmo que você venha a tomar a vacina nos próximos meses, isso provavelmente não eliminará a necessidade de continuar com as medidas preventivas à saúde ao sair de casa: ou seja, usar o “kit anti-corona”: máscara, álcool gel e distanciamento físico. Para alguns, é necessário até mesmo o uso do protetor facial. Prevenção nunca é demais.

Da mesma forma, o fato de seus investimentos em Bolsa e em criptomoedas continuarem a crescer exponencialmente em 2021 não diminuirá – pelo contrário, até reforçará – a necessidade de você manter também uma espécie de “kit anti-estouro-de-bolha”: investimentos em renda fixa, e algum hedge cambial (dólar, ouro etc.). Ou seja: caixa. Você precisa ter caixa, como regra, em todas as épocas, mas a necessidade de um bom caixa, uma boa reserva líquida em investimentos conservadores, aumenta em momentos de pânico nos mercados, principalmente se você precisar saldar compromissos de curto prazo, ou estiver interessado em aproveitar alguma queda mais grave no mercado de ações, como a que ocorreu entre março e abril desse ano de 2020.

Já vínhamos falando sobre isso nos últimos meses, e voltamos a reforçar nesse último artigo de 2020: muitas vezes, o perigo no mercado não está naquilo que se vê nos gráficos de desempenho dos ativos financeiros, mas sim naquilo que não se vê tão facilmente, e que se encontra escondido sob a superfície dos fatos, e que geralmente é ocultado e passa despercebido pela grande mídia.

Reflexões necessárias

As dificuldades do ser humano no seu agir psicológico são mais visíveis nos extremos de comportamentos: não ser eufórico quando todo mundo está contaminado pela euforia; e não ser excessivamente pessimista quando todo mundo está tomado pela depressão.

Hoje, dezembro de 2020, o que estamos vendo no mercado é um extremo de comportamento: a contaminação pela euforia. Os mercados estão saudáveis? Há justificativa ou descasamento entre os preços das ações e seus respectivos fundamentos? Você consegue ter um olhar crítico sobre esse movimento de alta?

De novo é importante realçar a suma importância de você construir um cabedal de conhecimento financeiro que lhe permita desenvolver um raciocínio independente sobre o que ocorre com a economia, os mercados e as empresas, pois é esse racional que lhe guiará na tomada de decisões sobre sua própria carteira de investimentos e, mais do que isso, sobre a sua própria vida financeira e planejamento pessoal, incluindo as decisões que tenha que tomar sobre a compra dos passivos.

Isso ocorre porque a pandemia provocou uma série de reflexões não só no âmbito dos investimentos, mas também, e até em maior grau, eu acredito, sobre os passivos – como, aliás, já dissemos em diversos outros artigos escritos ao longo desse ano de 2020.

O exemplo clássico é o do carro, ou melhor, do segundo carro, pois muitas famílias venderam o segundo carro durante esse ano, ficando apenas com um carro.

Outras tantas famílias revisaram seus gastos, que diminuíram bastante, e chegaram à conclusão de que não precisam viver com tantas despesas acumuladas em outras épocas, como roupas, viagens, clubes de milhas etc.

Há toda uma nova realidade que precisa ser encarada, e para a qual novas medidas, inclusive de novos gastos, tiveram que ser implementadas.

Existem pessoas que aproveitaram esse período de isolamento social para plantarem sementes de conhecimento, trabalhando e estudando de forma mais intensa e com mais concentração.

Isso é ótimo, pois vivemos numa época de “inverno”, ou seja, de fixar raízes, e não propriamente de desfrutar das flores, ver e colher frutos ou folhas. Assim como o inverno das estações da natureza, o inverno provocado pelo coronavírus é a oportunidade de se recolher, e de refletir sobre que rumo estava tomando sua vida, bem como constitui, ele próprio, um período e uma oportunidade para a realização de mudanças.

Conclusão

Todos estamos nos despedindo do ano de 2020 e aguardando ansiosos para que o ano de 2021 seja marcado por renovação de esperança, do retorno a mais convívio social, de continuação de recordes nos mercados financeiros etc.

Mas a verdadeira mudança não ocorre quando o ponteiro do relógio vira das 23:59 do dia 31 de dezembro de 2020 para as 00:00 do dia 1 de janeiro de 2021.

A verdadeira mudança não opera externamente: ela ocorre internamente. Dentro do eu.

Para muitas pessoas, inclusive, a melhor mudança já se operou durante esse ano de 2020, e não depois dele. Foram os casos de pessoas que resolveram sair do comodismo, trabalharam mais, estudaram mais, produziram mais, melhoraram a saúde, ou realizaram feitos pessoais, profissionais, familiares ou financeiros que até então não tinham sido alcançados.

A perspectiva, portanto, de um ano ser bom ou ruim, depende muito menos do que ocorre no mundo exterior, e muito mais daquilo que ocorre no seu eu interior, daquilo que você faz com aquilo que você tem.

E essa percepção equivocada a respeito dos fatos se deve, em muitos casos, à nossa desatenção conosco mesmo: ocupamos e damos atenção exagerada ao que ocorre com a vida dos outros, ao que os outros dizem, agem e falam, e, nesse afã de saciar nossa sede por novidades, nos descuidamos de nós mesmos, deixando-nos em segundo plano, para viver a vida dos outros.

Quem sabe essa passagem de ano, portanto, não seja um bom momento para reavaliar sua vida pessoal, mas mantendo, como eu disse no título do artigo, os pés no chão?

Desejo-lhe um Feliz 2021, fazendo votos de que você construa uma nova década (sim, a década de 20 começa em 2021) com a sua marca e que ela seja resultado do produto de seu esforço!

O post 2021: Pés no chão apareceu primeiro em Valores Reais.

Fale Conosco
Mande um WhatsApp