2021 será o ano da colheita dos frutos podres plantados em 2020?

Semana passada, publiquei um artigo ressaltando que não é o ano quem faz a pessoa, mas é a pessoa quem faz o ano:

“A perspectiva, portanto, de um ano ser bom ou ruim, depende muito menos do que ocorre no mundo exterior, e muito mais daquilo que ocorre no seu eu interior, daquilo que você faz com aquilo que você tem.”

Porém, é inevitável a conclusão de que, para nós, seres vivos, nenhum ano “vive sozinho”, sendo todos eles permeados por acontecimentos que formam um fio condutor e cronológico de eventos, onde os fatos subsequentes, que ocorrem em anos posteriores, são normalmente gerados e formados pelas ações e comportamentos precedentes, ou seja, que foram incubados, plantados ou iniciados em anos anteriores.

Existe, portanto, toda uma cadeia de eventos que se sucedem no tempo, a que atribuímos o nome de vida.

E é justamente aqui que se situa o ponto central da reflexão que trago para o dia de hoje. Assim como nenhum ser humano é uma ilha, nenhum ano é produto somente daquele ano, mas sim o resultado do ocorrido em anos anteriores.

O título que inaugura esse artigo talvez assuste pelo tom um pouco mais drástico do que o usualmente empregado, mas isso foi feito de forma proposital para despertar sua atenção, talvez até para tirá-lo à força de sua zona de conforto mental, e para fazê-lo refletir sobre o que de fato você vem fazendo, ou deixando de fazer, com sua própria vida.

Assim como ocorre com a natureza, também com os seres humanos vale a regra: tudo o que é plantado é colhido. Um jardim onde se plantam sementes de qualidade, e onde o jardineiro preza, cuida e é diligente com suas plantações, terras e arados certamente produzirá plantas, flores e frutos bons e de qualidade. Se não há diligência no semear, no plantar e no cultivar, provavelmente os frutos nascerão podres.

Com a vida não é diferente.

O resultado de suas ações será proporcional à energia e aos esforços que você terá empreendido anteriormente, de modo que a questão principal não é – ao contrário do que muitos pensam – resetar o ano de 2020 de suas vidas, mas sim refletir sobre se suas ações, seus comportamentos e sua linha de ação efetuados no ano passado estão te conduzindo aos objetivos e à direção que você espera de sua vida, ou se, ao invés de tudo isso, estão te afastando desses mesmos propósitos.

Exemplos

No campo da saúde, muitas pessoas, com receio de contraírem a infecção pelo coronavírus, passaram a se cuidar mais. O foco passou a ser a saúde. Apesar da quarentena, do lockdown e do fechamento das academias e parques, tais pessoas passaram a se alimentar melhor, a dormirem melhor, a fazerem exercícios físicos em casa mesmo etc.

Passando mais tempo dentro de casa, deram mais atenção às próprias refeições, iniciaram ou reforçaram o uso de suplementação, dormiram melhor, também beberam menos bebidas alcoólicas, e evitaram comidas ruins.

Provavelmente para essas pessoas não passa pela cabeça a ideia maluca de fazerem uma ruptura com 2020, dando um reset em tudo aquilo que fizeram ano passado, e os frutos a serem colhidos agora em 2021, se elas se mantiverem na mesma linha de conduta, não serão frutos podres.

Agora, pense numa situação diferente. Suponha que você esteja se preparando para concursos públicos e tenha ficado desanimado com o fato de ano passado não ter realizado nenhuma prova.

Aí, você se propõe a estudar com afinco para os concursos como resolução de ano novo, e, no segundo semestre, começam as inscrições e as provas para os ditos concursos.

Eventualmente, você vai mal e não consegue lograr os resultados que almejava – e fica se perguntando: “mas como isso ocorreu, se eu estudei tanto nesse primeiro semestre de 2021?”

Porém, o que você fez de concreto durante o ano passado inteirinho, especialmente de março a dezembro? Olhe para trás, e veja se você realmente aproveitou o excessivo tempo livre pra estudar e se preparar, ou se, pelo contrário, você usou o excesso de tempo livre de 2020 pra ficar maratonando séries no Netflix e gastando tempo inútil em redes sociais bisbilhotando a vida alheia. Como querer resultados diferentes fazendo as mesmas coisas de sempre?

Na área dos investimentos e finanças pessoais, a atenção deve ser redobrada, uma vez que as sucessivas quebras de recordes de pontuação nos índices de Bolsa de Valores – Ibovespa, Dow Jones, S&P 500 etc. – e até das criptomoedas, pode estar escondendo algo ruim sob a superfície que só foi se acumulando ao longo de 2020.

Cabe, também aqui, uma reflexão: será que os Estados em geral praticaram políticas que aumentarem a saúde da economia em 2020? Ou foram apenas medidas paliativas, frouxas, superficiais, que apenas tornaram ainda mais frágil – e não antifrágil – o sistema como um todo?

A implantação, ou mesmo a plantação – veja o verbo “plantar” aqui novamente – de medidas como impressão maciça de dinheiro, distribuição de dinheiro de graça para a população (por meio dos auxílios emergenciais), política de juro zero ou negativo etc., estão fazendo aumentar as chances de bons frutos serem colhidos agora em 2021, como o fortalecimento da economia, da indústria, dos serviços etc.? Ou o aumento exagerado das dívidas pode fazer sucumbir a economia, aumentar os riscos do surgimento de “cisnes negros” negativos (no sentido talebiano do termo), e, portanto, aumentar as chances da produção de frutos podres nos cenários macroeconômicos brasileiro e mundial?

Veja só que interessante: como eu disse em um artigo que se tornou clássico em novembro de 2010, você é livre para escolher, mas não será livre das consequências de suas escolhas. E essa frase se aplica tanto aos indivíduos, em seus microcosmos, como também às empresas, , instituições, sociedades e nações, em seus “macrocosmos”.

Amplie seu espectro de pensamentos

A essa altura do texto, você já deve estar inquieto e provavelmente já fazendo projeções para o ano vindouro. É uma coisa meio doida: mal começou o ano de 2021, e já estamos sendo convidados a pensar sobre 2022?

Exatamente.

Como eu disse no início desse texto, nenhum ano vive sozinho: tudo o que se faz em um ano terá, via de regra, graves repercussões sobre o que acontecerá no ano e nos anos subsequentes.

O fato de 2020 ter sido um ano aclamado como ruim por muitas pessoas não esconde o fato de que, para muitas pessoas, o ano de 2020 foi repleto de realizações, em áreas tão distintas como relacionamentos, trabalho profissional, estudos, saúde física, saúde mental, finanças pessoais, e espiritualidade, e isso só foi possível porque foi nesse ano de 2020 onde houve a cristalização, consolidação e finalização de uma série de atividades que já vinham se desenvolvendo ao longo dos anos anteriores – 2019, 2018, 2017…

O objetivo, portanto, desse texto, não é apenas te fazer refletir sobre os acontecimentos que virão nesse ano de 2021, mas sim para você refletir sua vida dentro de uma moldura mais ampla, ou seja, fazê-lo pensar sua vida em termos de objetivos de mais longo prazo, que exigem uma quantidade maior de tempo para serem realizados. Não é sobre projetos que você planeja hoje para fazer amanhã ou daqui a uma semana ou a um mês. É sobre coisas que terão impacto duradouro e permanente sobre sua vida, como a construção de degraus da escada que te levarão à liberdade e independência financeiras, a sua jornada rumo à ascensão acadêmica ou profissional, e o fortalecimento contínuo de níveis de saúde física, mental, espiritual e emocional.

Todos esses projetos de mais longa duração requerem que você visualize sua vida não apenas em termos anuais ou em escalas se tempo mais ou menos reduzidas a isso, mas sim em espectros temporais mais amplos e, para tal desiderato, é fundamental que você não se percam nas conversinhas meio furadas de “metas de ano novo”, e foque mais naquilo que você pode continuar a fazer o que foi bem feito e iniciado em ano ou anos anteriores.

Conclusão

É, portanto, o “fio condutor” que deve ser alvo de sua atenção, e não a “ruptura”. Ruptura só existe no calendário: não tente transportar isso para a sua mente, sob pena de, a cada virada de ano, você ser obrigado a realizar um novo, e muitas vezes desnecessário, reset mental sobre seus planos, suas aspirações e seus projetos de vida.

Não há dúvidas de que o ano de 2021 pode ser espetacular, com a economia aquecendo, o PIB crescendo, a inflação voltando ao controle, o dólar voltando pros R$ 4, o IBovespa subindo sem parar, as contas fiscais melhorando etc.

Mas para uma parcela (que pode ser significativa ou não) de pessoas, sociedades, empresas e países, o ano de 2021 pode não ser tão bom assim, e o resultado estará diretamente vinculado ao que foi mal feito ou o que se deixou de fazer em 2020 e nos anos anteriores.

No plano individual, aquilo que não foi feito em 2020, ou que foi mal feito, infelizmente reverberá seus efeitos agora em 2021, principalmente naqueles casos em que as consequências dos comportamentos são cumulativas, como formação (ou destruição) de patrimônio financeiro, fortalecimento (ou enfraquecimento) da saúde, aumento (ou estagnação) de habilidades cognitivas etc.

No plano coletivo, área na qual não temos controle sobre o que fazer, certamente observaremos a colheita tanto de frutos podres quanto de frutos ruins, pelo que as empresas, instituições e governos fizeram ano passado. Quanto a isso, o que você deve fazer é sobretudo construir uma mentalidade blindada e poderosa o suficiente para não se deixar levar pelo calor do momento, evitando, portanto, tomar atitudes influenciado unicamente pelas emoções negativas.

Sobretudo, invista naquilo que está ao seu controle. Tenha foco suficiente para não se deixar pelas distrações e micro frustações diárias que inevitavelmente irão ocorrer. Faça um planejamento consistente e construa hábitos e mini hábitos que te conduzam a ter uma vida mais racional e sistemática. Esse é o melhor antídoto para evitar ser contaminado pelos frutos podres que a sociedade atual certamente colherá nesse ano de 2021, como resultado de ações desastrosas ocorridas ano passado e nos anos anteriores.

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