Resumão da semana: recordes históricos no Ibovespa, Dow Jones, Nasdaq, S&P 500, bitcoin… Motivos para ficar animado?

O primeiro resumão da semana do ano de 2021 poderia ter como título central apenas essa palavra: recorde.

Recordes históricos têm sido registrados em muitos ativos de risco e Bolsas de Valores pelo mundo afora, mas esse sentimento de euforia generalizada traz consigo também sua própria semente da advertência (e, talvez, de destruição): haveria realmente motivos para confiar nessa exuberância irracional 2.0 (ou melhor, 2.1) que tomou conta dos mercados?

IBovespa a 125 mil pontos

Começando pela nossa Bolsa de Valores, estamos assistindo ao rally que começou logo após o resultado das eleições americanas (em novembro do ano passado) e ao anúncio das vacinas. Dos 94 mil pontos de então aos 125 mil da última sexta-feira, o Índice já cravou impressionantes 33% de valorização num espaço de tempo pouco superior a 2 meses.

E olha que estamos falando apenas do agregado, ou seja, do Índice Bovespa, que representa um conjunto das ações mais negociadas: evidentemente, há ações que subiram bem mais do que o índice nesse curto intervalo de tempo, assim como há também ações que se valorizaram menos nesse período, ou até que diminuíram de valor.

Por conta disso tudo é que muitos autores recomendam ao pequeno investidor que, do ponto de vista do custo/benefício, nada supera o investimento no próprio Índice de ações (por meio, por exemplo, da compra de fundos de índice passivo), onde o custo em termos de tempo é praticamente zero, mas os ganhos, ao menos numa visão de longo prazo, são “garantidos”, ao contrário do investimento em empresas individuais, que demandam muito gasto e consumo de tempo para estudos, e podem apresentar surpresas negativas, e riscos em demasia, como, por exemplo, no caso de falência.

Isso, aliás, foi explicado em vários artigos do blog ao longo do tempo (posts aqui), como, por exemplo, esse artigo, escrito em janeiro de 2018: Como eu obtive uma rentabilidade média de 26,75% em 2017, com minha carteira de mais de 50 ações, estudando apenas 7 minutos por mês (ou 1h24min durante o ano inteiro).

Para explicar ou justificar essa alta toda da Bolsa brasileira nos últimos meses, os analistas têm falado sobre diversos fatores: aumento da participação (fluxo) do investidor estrangeiro, super ciclo das commodities etc.

Porém, esse cenário todo de euforia deve ser contrabalançado e sopesado com as perspectivas no âmbito interno, principalmente o desequilíbrio cada vez mais gigantesco das contas públicas, e uma possível/provável nova impressão maciça de dinheiro pelo Banco Central do Brasil, caso se decida pela prorrogação do auxílio-emergencial, sobre cujas especulações, inclusive, têm feito o dólar voltar a perigosamente subir e inverter a tendência de baixa que vinha até então se formando.

Para o investidor pessoa física que investe na Bolsa como aliado na formação de patrimônio, uma palavra deve resumir seu estado de espírito e servir como guia para nortear suas ações: cautela.

Como diz Warren Buffett, às vezes o melhor a fazer é simplesmente não fazer nada, pois entrar no fim da festa pode causar prejuízos depois de difícil reversibilidade.

Já para aqueles que têm ações na carteira, e seguem um plano sistematizado de compras e vendas, é de se analisar uma provável venda de parte dos ativos financeiros que se valorizaram de forma a desequilibrar a alocação de ativos mais para o lado da renda variável, de forma a voltar às proporções originariamente estipuladas. Trata-se de aplicação prática do famoso lema de “comprar na baixa e vender na alta”.

Todo o cuidado é pouco quando se vive em meio a um mercado excessivamente otimista, pois isso pode estar escondendo e ocultando as fragilidades do sistema financeiro e dos mercados da economia real como um todo.

Recorrendo mais uma vez a Warren Buffett, nos mercados financeiros e nos ativos de renda variável em particular, é preciso ter medo quando todos à sua volta estão eufóricos, e é preciso ter um pouco de euforia quando todos à sua volta estão com medo.

Dow Jones, Nasdaq e S&P 500 no modo all time high

Mas os topos históricos no Ibovespa não se comparam à euforia generalizada que tomou conta de Wall Street nos últimos dias, com recordes históricos de pontuação em todas as Bolsas:

“O Dow Jones fechou em alta de 0,18%, em 31.097,97 pontos, o S&P 500 teve alta de 0,55%, a 3.824,68 pontos, e o Nasdaq avançou 1,03%, a 13.201,98 pontos. Na comparação semanal, o Dow Jones subiu 1,61%, o S&P 500 ganhou 1,83% e o Nasdaq, 2,43%”.

Como eu sempre gosto de frisar a respeito dos motivos das altas e baixas, os recordes históricos nas Bolsas não estão sendo motivados pela melhora significativa da economia real – muito pelo contrário, há sinais por toda a parte de que a economia ainda está patinando – mas sim pelas expectativas de mais impressão de dinheiro pelo governo americano. Ou seja, mais dinheiro sendo despejado na economia, mais dívidas sendo criadas pelos governos. Veja:

“Os índices futuros já subiam pela manhã, mas perderam força após o relatório mensal de empregos. O payroll mostrou fechamento de 140 mil vagas na economia dos EUA em dezembro, pior do que a previsão dos analistas. Ainda assim, as bolsas exibiram ganhos no começo da jornada.

À tarde, houve mínimas após a imprensa americana dizer que um senador democrata era contrário a mais pagamentos de cheques diretos aos americanos. Mas ainda houve tempo para o quadro melhorar, após Biden voltar a falar em estímulos fiscais, que segundo ele devem ficar na casa dos trilhões de dólares.

Na avaliação do Barclays, a vitória democrata na disputa pelo controle do Senado, após duas eleições em segundo turno na Geórgia, consolida a expectativa de mais apoio fiscal”.

Vejam que interessante: o que mais influenciou as Bolsas americanas na sexta não foi o dado extraído da economia real, do aumento do desemprego, mas sim a expectativa de aumento de impressão de dinheiro. Em outras palavras: um boato, e não um fato.

Desde o ano passado – aliás, a bem da verdade, desde a eclosão da crise do subprime (2007/2008) – as políticas de impressão de dinheiro (quantitative easing) pelo FED (Banco Central dos EUA) e de outros Bancos Centrais ao redor do mundo têm contribuído para um aumento vertiginoso nos preços dos ativos – e apenas nos preços dos ativos, e não nos preços dos passivos, já que essa impressão de dinheiro não resultou em inflação galopante nos países desenvolvidos.

Contudo, não deixa de ser preocupante a existência desse descompasso entre preço e valor, já que a produção econômica não acompanhou o aumento explosivo nos preços das ações.

Talvez o caso da Tesla seja o mais paradigmático dessa incrível bolha financeira que estamos vivendo, já as ações da Tesla cresceram tanto semana passada que Elon Musk já é, hoje, nesse momento, 11 de janeiro de 2020, a pessoa mais rica do mundo.

Mas será que há fundamento para tanta explosão de valor nas ações da Tesla? Confiram um trecho da reportagem do UOL:

“Sexta, a Tesla superou pela primeira vez os US$ 700 bilhões de capitalização de mercado no fechamento da Bolsa de Nova York, com uma alta de quase 3% de suas ações para US$ 755,98.

Esta manhã, a ação estava perto de US$ 800, alta de 5,7%.

As vendas do grupo, no entanto, permanecem muito distantes daquelas dos fabricantes de veículos tradicionais: a Tesla vendeu 499.550 veículos em 2020, longe dos 11 milhões da Volkswagen em 2019.

Mas a Tesla se beneficia do otimismo dos investidores para o futuro dos veículos elétricos e do fato de ter conseguido ganhar dinheiro em cinco trimestres consecutivos, o que a ajudou a entrar no prestigioso índice S&P 500 em dezembro”.

Como eu disse acima: o mercado de ações se move a expectativas (muitas vezes completamente distorcidas do senso comum), e não a fatos.

Parafraseando Buffett (mais uma vez!): o Sr. Mercado é um ser maluco, tanto pra cima quanto pra baixo, e é preciso tomar cuidado a se lidar com ele.

Um bitcoin valendo mais que um imóvel

Janeiro mal começou e o bitcoin já superou a marca dos 40 mil dólares, valorizando mais de 40% apenas na primeira semana de janeiro. Combinado com a valorização do dólar frente ao real, isso significa, na prática, a criptomoeda sendo comercializada acima do patamar de R$ 220 mil, valor superior a de um imóvel, em muitas cidades brasileiras.

Esse é um outro exemplo clássico da irracionalidade que tomou conta dos mercados, e as moedas digitais em geral, e o bitcoin em particular, sofrem, como nenhum outro ativo sofre, a marca da volatilidade em níveis estratosféricos, tanto em momentos de euforia, como os que estamos vivenciando agora, como em momentos de depressão.

A alta explosiva do bitcoin é mais um sinal de alerta de uma possível/provável bolha sendo formada a níveis cada mais assustadores.

Conclusão

Os topos históricos em diversos ativos ao redor do mundo deve ser vistos com bastante cautela e preocupação, ainda mais porque a economia ainda deve demorar a voltar aos níveis pré-crise, considerando que lockdowns e medidas de distanciamento social continuam a ser praticadas ao redor do mundo, privando milhões de cidadãos de seu direito básico à liberdade de locomoção.

Ter uma reserva de emergências bem constituída e não tomar atitudes precipitadas com seu dinheiro são as medidas mais prudentes a serem tomadas, no atual cenário, para evitar ser pego de surpresa na próxima crise, que não é uma questão de “se”, mas sim uma questão de “quando” virá. Estejamos todos preparados, pois. 😉

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