Vacinação contra covid: três gargalos que países já estão enfrentando

ByMax Blanc

jan 11, 2021
Falta de frascos para vacina pode ser um gargalo

Falta de frascos para vacina pode ser um gargalo
Reuters

O começo de 2021 está sendo marcado pela corrida mundial entre países para vacinar suas populações e pôr fim à pandemia.

Israel, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, China, Rússia, Itália, Canadá são alguns dos países que já começaram a imunizar suas populações.

Algumas metas são ambiciosas. Israel quer se tornar o primeiro país a acabar com a covid-19 por meio de vacinação. Já o governo britânico — que aprovou três vacinas contra covid-19 — anunciou no fim de semana que sua meta é vacinar toda a população adulta até meados de setembro.

Mas garantir a vacinação da população não significa apenas assegurar a compra de doses das vacinas já aprovadas por autoridades sanitárias — como os produtos de Oxford-AstraZeneca, Pfizer-BioTech, Moderna, entre outros.

Governantes estão enfrentando problemas logísticos para conseguir, em pouco tempo, a vacinação em massa.

No Brasil, o governo de São Paulo já anunciou que pretende começar a vacinar contra covid no dia 25 de janeiro, mas até o momento a Anvisa ainda não aprovou nenhum imunizante.

Confira abaixo alguns dos gargalos logísticos que os governos estão enfrentando.

1) Frascos

Uma das primeiras preocupações é a falta de frascos de vidro para as vacinas.

As vacinas precisam passar por um procedimento chamado “fill and finish” — de preenchimento dos frascos e empacotamento final, para envio aos hospitais e postos de vacinação.

As farmacêuticas que produzem as vacinas não costumam ter a capacidade de cuidar dessa etapa, por isso empresas terceirizadas são contratadas.

Esse é um problema histórico de outras campanhas de vacinação. Em 2012, o governo dos EUA passou a investir na criação de redes especializadas nesse processo de “fill and finish”, que serviriam para finalizar vacinas em casos de emergências de saúde, como pandemias.

Uma das redes, a Fill Finish Manufacturing Network (FFMN), tem capacidade para finalizar 117 milhões de doses em um prazo de 12 semanas.

Mas nem todos os países têm essa capacidade. E para complicar a situação, autoridades estão alertando para a falta de vidro para os frascos, que é a matéria-prima dessa indústria.

O assunto foi levantado na semana passada pelo vice-chefe médico do governo britânico, Jonathan Van-Tam.

“Muitos de vocês já sabem que não se trata apenas de produzirmos vacinas. Também precisamos de ‘fill and finish’, que é um recurso em escassez crônica no mundo hoje.”

Na semana passada, o Reino Unido havia produzido 15 milhões de doses da vacina de Oxford-AstraZeneca, mas apenas 4 milhões delas haviam passado pelo processo de “fill and finish”.

Van-Tam disse que essa escassez pode retardar as metas de vacinação do governo britânico, mas não deu detalhes sobre o tamanho do problema atual.

Como os contratos entre as farmacêuticas e as empresas de “fill and finish” são sigilosos, não há dados públicos para se saber como esse gargalo pode afetar a oferta de vacinas para a população.

A associação britânica de empresas produtoras de vidro, a British Glass, reconheceu que existe o problema afirmou que está em busca de uma solução “de longo prazo” para garantir o suprimento de vidros para os frascos de vacina.

A maior produtora de vidro borossilicato — a matéria-prima dos frascos — vem aumentando a sua produção desde que a pandemia começou, antes mesmo de existir uma vacina. A alemã Schott abriu no mês passado outra fábrica na China para atender a demanda mundial pelo seu produto, que deverá ser usado em 75% das vacinas de covid no mundo.

2) Vacinadores

Um problema para alguns países é a falta de pessoas para vacinar a população.

No Reino Unido, as vacinas ficaram prontas antes que as autoridades tivessem um plano para administrar as doses na população.

Ter pessoas capacitadas para administrar doses segue um desafio

Ter pessoas capacitadas para administrar doses segue um desafio
Reuters

O país passou a convocar pessoas da área médica — como médicos aposentados e dentistas — para ajudar a vacinar a população. No entanto, uma série de entraves burocráticos impediram muitos de se voluntariar.

O sistema nacional de saúde exige uma série de documentos e a realização de dezenas de cursos online para uma pessoa poder ajudar a vacinar.

Entre as exigências estão cursos que tratam sobre como lidar com radicalização ideológica e como proteger crianças — sendo que crianças não receberão as vacinas para covid.

Alguns médicos aposentados que já estavam administrando a vacina em lares de idosos não receberam permissão para virarem voluntários no sistema nacional de saúde.

Muitos voluntários acabaram desistindo de ajudar.

Na semana passada, o secretário britânico de Saúde, Matt Hancock, prometeu acabar com diversas exigências para voluntários de vacinação, como treinamentos em terrorismo e incêndios.

Já na Espanha, o Conselho Nacional de Enfermagem (CNE) do país afirma que o número de vacinadores é suficiente para lidar com a pandemia. Mas a entidade critica o governo por não coordenar de forma eficiente a campanha e vacinação.

“Há grande disparidade regional na imunização da população nesta primeira semana. Um exemplo claro é [a província de] Astúrias, que tem uma proporção de 6,5 enfermeiras por mil habitantes e administrou 80% das doses recebidas. Entretanto, Madrid, com 6,7 enfermeiros por mil habitantes, uma proporção superior à das Astúrias, utilizou apenas 11,5 das suas doses”, afirma o CNE.

A Espanha recentemente convocou o Exército para ajudar a entregar as doses de vacina em lugares mais remotos do país, depois que uma forte nevasca atrapalhou a logística de distribuição dos imunizantes.

Diversos países como Alemanha, Itália, Reino Unido e Israel estão enfrentando um problema adicional: as vacinações acontecem em um momento de forte aumento no número de hospitalizações. As autoridades estão tendo que deslocar mais recursos e profissionais para lidar com pacientes de covid-19 — inclusive com o cancelamento de diversos procedimentos não-urgentes.

3) Seringas

Governos estão correndo também para garantir o suprimento de seringas. É o caso do Brasil, que zerou a alíquota de importação de seringas e está atualmente em uma queda de braço com empresas produtoras, após o fracasso de um leilão no mês passado. Outros países onde há relatos de deficiências no número de seringas são Coreia do Sul, Itália e Grécia.

Na semana passada, um novo problema surgiu envolvendo seringas.

A Agência Europeia de Medicina alertou que muitos países estão usando seringas erradas para vacinação, que extraem apenas cinco doses dos frascos da Pfizer, e que uma sexta dose está sendo desperdiçada. A agência também fez um alerta que as sobras de vacina nos frascos não devem ser juntadas para formar uma nova dose completa.

O jornal The New York Times noticiou que autoridades americanas ainda não compraram as seringas certas, que permitiriam um aumento de 20% no número de doses disponíveis para sua população.